O crédito no Brasil somava R$ 7,4 trilhões em junho de 2026, com alta de 9,7% em 12 meses. Mas a inadimplência está em 4,7%, o maior nível desde março de 2011, e a taxa média de juros das concessões subiu para 33,4% ao ano — mesmo com a Selic caindo. É crescimento sem folga.
Todo mês o Banco Central divulga as Estatísticas Monetárias e de Crédito. Todo mês a manchete é a mesma: “crédito cresce X%”. E todo mês essa manchete esconde a parte que interessa a quem toma crédito.
Este texto pega os dados de junho de 2026, publicados em 30 de julho, e faz a leitura que importa para quem está do outro lado do balcão — pessoa física endividada ou empresário procurando capital de giro.
O tamanho do mercado de crédito no Brasil em 2026
O saldo total das operações do Sistema Financeiro Nacional fechou junho em R$ 7,4 trilhões. Crescimento de 0,7% no mês e de 9,7% em 12 meses.
Até aí, número de expansão. O problema aparece quando você abre a composição.
| Segmento | Crescimento em 12 meses |
|---|---|
| Crédito direcionado (poupança, BNDES, FGTS) | +12,7% |
| Crédito livre | +7,5% |
| Rotativo do cartão de crédito | +19,3% |
Duas coisas saltam.
A primeira: o crédito direcionado — aquele com taxa controlada, ligado a habitação, rural e BNDES — cresce quase o dobro do crédito livre. Ou seja, boa parte da expansão vem de linha subsidiada, não de mercado.
A segunda é mais séria: a linha que mais cresce em todo o sistema é o rotativo do cartão de crédito, com 19,3% em 12 meses. Ninguém entra no rotativo por estratégia. Entra porque não conseguiu pagar a fatura.
Quando o rotativo lidera o crescimento, o mercado não está tomando crédito porque enxergou oportunidade. Está tomando porque precisa.
As concessões: empresas aceleraram, famílias não
As concessões de crédito livre somaram R$ 668,4 bilhões em junho, alta de 6,7% sobre maio e de 9,3% em 12 meses.
| Concessões — junho/2026 | Volume | Variação no mês | Variação em 12 meses |
|---|---|---|---|
| Pessoas físicas | R$ 338,4 bi | +1,4% | +10,2% |
| Empresas | R$ 330,0 bi | +12,7% | +8,3% |
O salto de 12,7% nas concessões para empresas em um único mês é o dado mais interessante da divulgação. Depois de meses de retração, os bancos voltaram a liberar volume para PJ.
Isso não significa que ficou fácil. Significa que ficou seletivo — e é uma distinção que muda tudo na hora de montar um pedido de crédito.
Inadimplência em 4,7%: o maior nível desde 2011
Aqui está o número que o mercado inteiro está olhando.
A inadimplência total do SFN ficou em 4,7% em junho. Estável em relação a maio — mas estável no topo de uma série de 15 anos. É preciso voltar a março de 2011 para encontrar patamar igual.
| Recorte | Inadimplência (jun/2026) | Ante maio |
|---|---|---|
| Total do SFN | 4,7% | estável |
| Crédito livre | 6,2% | estável |
| Crédito livre — pessoa física | 7,6% | estável |
| Crédito livre — pessoa jurídica | 4,0% | caiu de 4,1% |
| Crédito direcionado | 2,7% | caiu de 2,8% |
Repare no detalhe: a inadimplência das empresas caiu e a do crédito direcionado também. Quem está segurando o índice geral no teto é a pessoa física no crédito livre, parada em 7,6%.
O indicador que ninguém noticia — e que importa mais
Inadimplência formal é fotografia do passado. O crédito só entra na estatística depois de 90 dias de atraso — o problema começou meses antes.
O indicador antecedente é o atraso entre 15 e 90 dias. Ele avançou 69 pontos-base em junho.
Traduzindo: uma parcela relevante do crédito que hoje está classificado como “em dia” já começou a atrasar. Se essa faixa continuar subindo, a inadimplência formal acompanha em três a seis meses.
Para o mercado, é sinal de aperto à frente. Para quem toma crédito, é aviso: a janela de negociação é agora, enquanto o nome ainda está limpo. Depois de negativado, a conversa muda de patamar — e a taxa também.
Juros: a Selic caiu, o crédito não
Este é o ponto de maior desencontro entre a narrativa econômica e a realidade de quem paga.
A Selic está em 14,25% ao ano, o menor nível de 2026, depois de três cortes consecutivos de 0,25 ponto percentual nas reuniões de março, abril e junho. O Copom se reúne novamente em 4 e 5 de agosto, e a expectativa majoritária é de mais um corte de 0,25 p.p.
O Relatório Focus mostra a mediana das projeções para o fim de 2026 caindo de 14,00% para 13,75% — a primeira revisão para baixo desde março. Para 2027, a projeção é 12,00%; para 2028, 10,50%.
Ótimo. Agora veja o que aconteceu com a taxa que se cobra do cliente:
| Taxa média de juros | Junho/2026 | Em 12 meses |
|---|---|---|
| Todas as modalidades (concessões) | 33,4% a.a. | +1,5 p.p. |
| Crédito livre (total) | 49,8% a.a. | +3,7 p.p. |
| Crédito livre — pessoa física | 64,0% a.a. | +4,6 p.p. |
| Crédito livre — pessoa jurídica | 24,4% a.a. | recuou de 24,9% em maio |
| Spread bancário | 21,9 p.p. | +1,1 p.p. |
A Selic caiu 0,75 p.p. no ano. A taxa média das concessões subiu 1,5 p.p. em 12 meses. O spread bancário — a diferença entre o custo de captação do banco e o que ele cobra — se expandiu 1,1 p.p.
Por que isso acontece
O juro que você paga tem dois componentes: o custo do dinheiro para o banco (ligado à Selic) e o prêmio de risco (ligado à sua chance de não pagar).
Quando a inadimplência sobe, o segundo componente cresce mais rápido do que o primeiro cai. Foi exatamente isso em 2026: a Selic recuou, mas o risco percebido subiu mais.
Tem uma consequência prática que muda a estratégia de quem busca crédito. Se o que encareceu foi o prêmio de risco, o caminho para baixar a taxa não é esperar a Selic cair. É reduzir o risco percebido da operação — com garantia real, com estrutura de comprovação melhor, com a linha certa para o objetivo certo.
A diferença entre 24,4% ao ano no crédito livre PJ e as taxas de uma operação com garantia imobiliária não vem da Selic. Vem do risco.
Pessoa física: 80,4% das famílias endividadas
O retrato do consumidor vem da Peic, pesquisa mensal da Confederação Nacional do Comércio.
- 80,4% das famílias brasileiras tinham dívidas em março de 2026 — recorde da série histórica, contra 77,1% um ano antes
- 29,6% estavam com contas em atraso
- 12,3% declararam não ter condições de pagar o que devem
- 49,4% dos inadimplentes estão com atraso superior a 90 dias
O último número é o mais duro. Metade da inadimplência das famílias não é deslize de um mês — é dívida cristalizada, que já rolou pelo rotativo, já foi renegociada uma vez e continua em pé.
Com juros de 64% ao ano no crédito livre PF, uma dívida nessa faixa dobra em pouco mais de um ano.
Pessoa jurídica: duas velocidades
Os dados bancários e os dados de mercado contam histórias diferentes sobre as empresas — e as duas são verdadeiras.
No sistema bancário, a situação melhorou: inadimplência PJ caiu para 4,0%, concessões subiram 12,7% no mês, taxa média recuou de 24,9% para 24,4% ao ano.
Fora dele, a foto é outra. A Serasa Experian aponta mais de 9 milhões de empresas negativadas em maio de 2026, com R$ 229,9 bilhões em dívidas — patamar recorde. Micro e pequenas empresas são 8,5 milhões desse total.
As duas leituras se conciliam assim: as empresas que já têm acesso a crédito bancário estão pagando em dia; as que não têm estão travadas fora do sistema. É um mercado de duas velocidades, e a distância entre elas aumentou.
O que decide de que lado a empresa fica raramente é o faturamento. É a estrutura da garantia e a qualidade da documentação.
O que mudou na estrutura do crédito em 2026
2026 concentrou mais mudança regulatória do que a década anterior inteira. Quatro delas mexem diretamente no bolso de quem toma crédito:
1. Teto de juros do cartão. Desde 1º de janeiro de 2026, o total cobrado do consumidor — juros, multas e encargos somados — não pode ultrapassar o dobro do valor original da dívida. Uma fatura de R$ 1.000 não vira mais do que R$ 2.000. Antes, o rotativo passava de 400% ao ano em alguns períodos.
2. Portabilidade de crédito pelo Open Finance. Desde fevereiro de 2026, dá para transferir uma dívida de um banco para outro pelo celular, em até três dias úteis. Começou por crédito pessoal, com expansão para consignado prevista até novembro.
3. Crédito do Trabalhador. O consignado para trabalhador CLT do setor privado passou de R$ 117 bilhões em operações desde o lançamento, em março de 2025.
4. Duplicata escritural. O Banco Central colocou de pé o ecossistema operacional, com produção assistida no segundo semestre de 2026 e obrigatoriedade escalonada a partir de junho de 2027. É a mudança que mais deve afetar o custo do capital de giro nos próximos anos.
O que fazer com tudo isso
Cinco conclusões práticas dos dados acima:
1. Esperar a Selic cair não é estratégia. A Selic recuou 0,75 p.p. e a taxa média das concessões subiu. Quem esperou o “juro melhorar” pagou mais caro. O que dá para mexer é o prêmio de risco, não o custo de captação.
2. Garantia vale mais do que nunca. Com spread em 21,9 p.p., a diferença entre uma operação com garantia real e uma sem chega a dezenas de pontos percentuais ao ano. É o maior fator de redução de custo disponível hoje.
3. A janela é antes do atraso. O indicador de atraso de 15 a 90 dias está subindo. Quem reorganiza a dívida com o nome limpo negocia; quem espera negativar, aceita.
4. Rotativo e cheque especial não são crédito — são sintoma. Crescendo 19,3% em 12 meses, o rotativo é o termômetro do aperto. Se ele apareceu no seu extrato, o problema é de estrutura de dívida, não de mês ruim.
5. Comparar ficou possível. Com Open Finance e portabilidade digital, o custo de trocar de banco caiu. A inércia — ficar onde está por comodidade — passou a ser cara.
Perguntas frequentes
Qual o tamanho do mercado de crédito no Brasil em 2026?
O saldo total das operações de crédito do Sistema Financeiro Nacional era de R$ 7,4 trilhões em junho de 2026, com crescimento de 9,7% em 12 meses, segundo o Banco Central.
Qual a taxa de inadimplência do crédito no Brasil hoje?
A inadimplência total do SFN está em 4,7%, o maior nível desde março de 2011. No crédito livre é de 6,2% — 7,6% para pessoas físicas e 4,0% para empresas. No crédito direcionado, 2,7%.
Quanto está a taxa média de juros do crédito em 2026?
A taxa média das concessões, considerando todas as modalidades, está em 33,4% ao ano. No crédito livre, 49,8% ao ano: 64,0% para pessoa física e 24,4% para pessoa jurídica.
Se a Selic está caindo, por que os juros do crédito não caem?
Porque o juro final tem dois componentes: o custo de captação do banco, ligado à Selic, e o prêmio de risco, ligado à inadimplência. Em 2026 a Selic caiu 0,75 p.p., mas a inadimplência subiu para o maior patamar em 15 anos e o spread bancário se expandiu 1,1 p.p. O risco subiu mais do que o custo caiu.
Qual a Selic hoje e qual a projeção para o fim de 2026?
A Selic está em 14,25% ao ano, após três cortes de 0,25 p.p. em 2026. A mediana do Relatório Focus projeta 13,75% no fim de 2026, 12,00% em 2027 e 10,50% em 2028.
Está mais fácil ou mais difícil conseguir crédito em 2026?
Mais seletivo. As concessões para empresas cresceram 12,7% em junho e para pessoas físicas, 1,4%. Ou seja, há volume disponível — mas concentrado em operações com garantia sólida e comprovação bem estruturada.
Precisa entender onde a sua operação se encaixa nesses números?
A Stoia é assessoria de crédito. Não vendemos produto de banco — estruturamos a operação do lado de quem toma, comparando linha, garantia e custo efetivo total antes de qualquer proposta.
Se você é empresário e está avaliando capital de giro ou home equity, ou se é pessoa física planejando uma aquisição, vale uma conversa antes de assinar qualquer coisa.
Fontes
- Banco Central do Brasil — Estatísticas Monetárias e de Crédito, dados de junho/2026 (divulgação de 30/07/2026)
- Juro médio no crédito livre sobe a 49,8% em junho — Diário do Grande ABC
- Juros das famílias chegam a 64% ao ano — Agência Brasil
- Inadimplência no crédito mantém nível recorde de 4,7% — Revista Oeste
- Nas vésperas do Copom, mercado reduz expectativa para Selic em 2026 — O Tempo
- CNC: endividamento das famílias chega a 80,4% — CNN Brasil
- Inadimplência das empresas mantém patamar recorde — Serasa Experian
Stoia Assessoria Financeira
Assessoria de crédito com mais de 7 anos de atuação e acesso a mais de 20 instituições financeiras. Equipe com certificação CPA-10 e habilitação de correspondente bancário (ANEPS). Porto Alegre/RS, atendimento em todo o Brasil.
Este conteúdo tem finalidade informativa e educacional e não constitui recomendação de investimento ou consultoria financeira individualizada. Taxas, prazos, disponibilidade de cartas contempladas e condições de crédito variam por instituição e dependem de análise de crédito. Não há garantia de contemplação em consórcio. Os dados citados referem-se à data de apuração indicada em cada fonte.